This must be the place

/ en + pt /

 
 

" Sometimes I think that all of us hopeless wanderers somehow had our souls switched before birth and we continue searching for our rightful belonging. "

 
 

/ en /

"Good morning babe," Mariana smirked as she held back her laugh. I glanced over to see the hostel guests gathering to eat their breakfast. After staying here for three weeks, I had decided sleeping on the terrace to be better than bunking in the stuffy, crammed dorms. It felt as if it was becoming my home, probably due to the fact I was spending as much time as possible with Mariana, the hostel manager.
As I grabbed some fresh fruit, sat down with the other travelers, and sipped my coffee, I wondered how much longer I would stay on. Why did I love Brazil so much? Ever since I first set foot in Rio de Janeiro I felt as if I should have been born here. Sometimes I think that all of us hopeless wanderers somehow had our souls switched before birth and we continue searching for our rightful belonging. Sometimes we may occasionally find that place. It is an overwhelming emotion to feel like your first visit is a homecoming.

That is how I felt the first time I met Mariana. Although next to her I quit asking any questions about my life choices and it didn’t matter why I was living in a foreign country. Nor did I care too much for anything else in the universe when I was watching the sunset over Dois Irmãos or hiking in Tijuca National Forest. Rio enchants me. The buzzing traffic at all hours, the latest baile funky track flowing down the hillsides, and the cheering from Flamengo fans unfailingly bring a smile to my face. The chaotic cacophony of Brazil seems to be constantly reminding me: this is where you belong. Every time I arrive in the city it just feels right.
To me, falling in love with a city is quite similar to falling in love with a woman. You become acquainted with every last corner; always exploring and finding hidden secrets that you didn’t think existed. Sometimes it can surprise you, certain parts enthral you, and yet some parts you ignore altogether. Women and cities also tend to mutually reinforce your emotions. Many times I fall in love with a place and it only augments that feeling when I have a beautiful person to share it with. As time progresses, the city seems to become an extension of yourself as you become a part of it. I started to wonder if those first intuitions are fate’s way of showing us the future that lies ahead.
In Slaughterhouse 5, Kurt Vonnegut wrote about the Tramalfadorians, an alien species that see time spread out in front of them from the start of the universe to its end; they exist in all time simultaneously. Einstein thought that time curved and looked more similar to a corkscrew than a straight line. Thus history continues to repeat itself as our perception of time progresses. The intense moments of consciousness when something feels 'meant to be' resembles memories of the future. It's almost as if it's a reminder of what’s to come.
Mariana and I would spend the sweltering nights of the Rio summer lying in a hammock together as we listened to Jorge Ben Jor or Tim Maia. Most mornings I would wake up, head to the beach, put on some sunscreen and get an agua de coco. I’ve never seen someone as happy as the day Mariana saw me put on a Flamengo jersey. This made me feel like a true Carioca. She had the most incredible smile and I was fortunate to be able to witness it on a daily basis, just as I was able to witness the magnificent beauty of the Rio de Janeiro landscape every evening.
Some afternoons after the beach Mariana would cook me barely edible beef stroganoff in the tiny and exceptionally filthy hostel kitchen. In those moments, nothing else mattered. I can’t think of a time when I had fewer cares. As much as we enjoyed just being together no matter what the conditions, life had different plans. I was presented an opportunity to move on but it didn’t last long. Rio continued to drag me back, yet my relationship with Mariana came to an end. When I left, it was hard to say goodbye but I will always remember the beauty of that Brazilian summer. It is hard when a chapter in life comes to its finale. That is unless you see the world like Vonnegut’s extraterrestrials from Tramalfadore, that precious moment will always live in their timeless world.

In my own universe, it will always be alive in the memories that occasionally come back on a sleepless night or when I walk down that same Ipanema street and glance over at the entrance to the hostel. The smell of overheated sewage, the sound of cicadas buzzing late in the evenings, and Mariana’s soft skin will live on as if a dream from a past lifetime.

Unlike my relationship with Mariana, Rio de Janeiro and I have continued our deep love affair. No matter where I travel or how many incredible new cities I fall in love with, I always come back to her. She always embraces me with open arms and sings me the beautiful yet untamed melodies she charmed me with many years ago.

**


 

" Às vezes penso que todos nós, andarilhos desesperançosos, tivemos nossas almas trocadas antes do nascimento e estamos sempre em busca do lugar onde nós pertencemos."

 
 

/ pt /

“Bom dia, gatinho” Mariana sorriu presunçosamente tentando segurar o riso dela.  Olhei de relance os hóspedes do albergue se reunindo para tomar café da manhã.  Após três semanas de estadia no local, decidi por dormir no terraço para ficar mais confortável do que estava nos dormitórios apertados e abafados. Sentia que o albergue estava se tornando minha casa, provavelmente porque eu passava o máximo de tempo possível junto com a Mariana, a gerente do albergue.

Assim que peguei algumas frutas frescas, sentei com os outros turistas e tomei um gole de café, eu me perguntei quanto tempo mais iria ficar ali. Por que amava tanto o Brasil? Desde que pisei pela primeira vez no Rio de Janeiro, eu senti que era ali que deveria ter nascido. Às vezes penso que todos nós, andarilhos desesperançosos, tivemos nossas almas trocadas antes do nascimento e estamos sempre em busca do lugar onde nós pertencemos. Talvez até encontremos este lugar. É uma emoção irresistível visitar um lugar pela primeira vez e sentir-se voltando para casa.

Foi assim que me senti quando conheci Mariana, embora eu parasse de questionar estas minhas escolhas de vida quando estava ao lado dela. Morar num país estrangeiro não importava. Nem qualquer outra questão do universo importava, quando assistia, do Dois Irmãos, ao pôr do sol, ou quando trilhava pela Floresta Nacional da Tijuca. O Rio me encanta. O tráfego intenso a qualquer hora; os mais novos hits dos bailes funk ecoando dos morros; a vibração das torcidas locais de futebol – tudo isso invariavelmente me faz sorrir. O ruído caótico do Brasil parece estar constantemente me lembrando: este é o lugar onde pertenço. Toda vez que chego a esta cidade eu me sinto bem.

Para mim, apaixonar-se por uma cidade é muito semelhante a apaixonar-se por uma mulher. Você se torna íntimo de cada canto; sempre explorando e descobrindo segredos escondidos que não tinha ideia que existiam. Alguns dos segredos podem surpreendê-lo. Outros, encantá-lo. E, mesmo assim, você acaba ignorando totalmente parte deles. Mulheres e cidades tendem a despertar mutuamente suas emoções. Muitas vezes eu me apaixono por um lugar e, quando tenho uma pessoa especial para compartilhar este sentimento, as duas sensações se ampliam. Com o passar do tempo, a cidade parece se tornar uma extensão própria de si mesmo, à medida que você se torna parte dela. Eu comecei a me perguntar se aquelas primeiras intuições eram peças do destino tentando me mostrar o futuro que se aproxima.

Em Slaughterhouse 5, Kurt Vonnegut escreveu sobre os Tramalfadorianos, uma espécie de alienígena que enxerga o tempo expandido à sua frente, do começo ao fim do universo; eles existem em todo o tempo, simultaneamente. Einstein achava que o tempo era curvo e que era mais similar, em forma, a um saca-rolhas do que a uma linha reta. Assim, a história continua a repetir-se como nossa percepção de passagem de tempo. Os momentos intensos de consciência quando algo parece tão destinado a ser daquela forma remetem a memórias do futuro. É quase como se fossem um alerta do que está por vir.

Eu e Mariana gostávamos de passar as noites escaldantes do verão carioca deitados numa rede enquanto ouvíamos Jorgen Ben Jor ou Tim Maia. Na maioria das manhãs, eu acordava, caminhava para a praia, punha bloqueador solar e tomava uma água de coco. Nunca vi rosto tão feliz quanto o da Mariana no dia em que ela me viu vestir uma camisa do Flamengo. Fez-me sentir um verdadeiro carioca. Ela tinha o sorriso mais incrível e eu tinha a sorte de testemunhar tal beleza diariamente, ao mesmo tempo em que tinha o privilégio de admirar a beleza magnífica da paisagem carioca, todas as noites.

Algumas tardes, após a praia, Mariana cozinhava para mim um strogonoff de carne bastante improvisado, na minúscula e excepcionalmente suja cozinha do albergue. Naqueles momentos, nada mais importava. Não consigo recordar-me de outro momento em que tivesse tão poucas preocupações. Por mais que curtíssemos estar juntos, independente das condições, a vida tinha planos diferentes. Fui apresentado a uma oportunidade para seguir em frente, mas não durou muito. O Rio continuava a me atrair de volta, embora meu relacionamento com Mariana tivesse chegado ao fim. Quando fui embora, foi difícil dar adeus, mas a beleza do verão brasileiro ficou eterna na minha memória. É doloroso quando um capítulo da vida chega ao fim, a não ser que você tenha a habilidade de enxergar o tempo como os extraterrestres de Tramalfadore de Vonnegut. Neste caso, esses momentos preciosos vão sempre estar vivos no seu mundo atemporal.

No meu universo próprio, eles estão sempre vivos nas memórias que ocasionalmente me arrebatam em noites insones, ou enquanto caminho pelas ruas de Ipanema e vislumbro a porta do albergue. O cheiro de esgoto superaquecido, o zumbido das cigarras no tardar das noites e a pele macia de Mariana vão permanecer vivos como se fossem um sonho de uma vida passada.

Ao contrário do meu relacionamento com Mariana, eu e o Rio de Janeiro mantivemos nosso caso profundo de amor. Não importa para onde eu viaje, ou por quantas outras cidades incríveis eu me apaixone, eu sempre vou voltar para ela. Ela sempre me recebe de braços abertos e canta suas belas, porém selvagens, melodias que me conquistaram há vários anos atrás.

**